# Our family | Escuteiros do século XXI: Como gerir a tecnologia em campo


Se me acompanham pelas redes sociais, certamente se aperceberam que no fim de semana passado o Daniel e a Carolina participaram naquela que foi a sua primeira grande actividade de escuteiros: um acantonamento de 3 noites numa aldeia da Serra da Estrela. E se até aqui as saídas com os escuteiros ainda nunca tinham excedido os 5 km de distância de casa e 1 noite fora, desta vez o caso mudou de figura e colocou-nos uma questão na qual ainda não tinha pensado. Como é que íamos ter notícias deles nestes dias?


A verdade é que sempre que ficam longe de nós, leia-se com os avós, telefonam regra geral de manhã e à noite e estamos permanentemente em contacto, mas em actividade de escuteiros isso não se coaduna. É incomportável pedir a um adulto, o(a) chefe de secção que disponibilize o seu telemóvel a tempo inteiro para que as crianças falem com os pais. E digo que é incomportável por todas as razões e mais alguma sendo para mim as principais: a destabilização que isso traria ao grupo e às actividades planeadas que seriam constantemente interrompidas por telefonemas; e a complicadíssima gestão logística de telefonemas de pais de 25 crianças. 

Só na semana passada a conversar com a chefe da Alcateia é que pensei nisto, trocámos algumas ideias e realmente tomei consciência que foi um problema que eu enquanto ex-chefe de alcateia nunca enfrentei porque o uso de telemóveis não estava tão generalizado como está hoje. Aliás, só saí dos escuteiros em 2006 e muito sinceramente não tenho memória de ter telemóveis em campo nunca!

Mas, com tudo o que nos trazem de bom e de mau, hoje em dia estamos muito dependentes deles e o primeiro pensamento enquanto mãe foi obviamente: como é que vou falar com os meus filhos?


Neste caso em concreto, o Daniel não foi para a actividade cheio de vontade. Não aceitou com saltos de alegria a notícia de que iria para a Serra da Estrela e ao contrário da irmã disse de imediato que não queria ir porque eram muitos dias. Depois de uma pequena conferência familiar, decidimos que ele devia ir. Primeiro porque se quis entrar para os escuteiros tem que ser responsável e assumir que é para participar em tudo aquilo que lhe é proposto, salvo excepções bem fundamentadas. Segundo porque em relação à irmã é muito mais dependente de nós e gosta pouco de sair da zona de conforto, oferecendo resistência em dormir fora de casa mesmo quando é para casa dos avós. Considerámos que lhe fazia bem, que o ajudaria a ser mais independente, mais desenrascado e a testar os seus próprios limites, pelo que conversámos com ele, explicámos tudo o que achávamos e dissemos que queríamos que ele também fosse. Aceitou, embora um pouco contrafeito, e daí termos também consciência de que falar ao telefone só iria provocar mais ansiedade e menos disponibilidade para aproveitar a actividade. 

Não obstante tudo isto, o combinado pela chefe com os pais foi disponibilizar uma hora por dia para quem quisesse poder telefonar e ir partilhando actualizações sobre a actividade na página de facebook do agrupamento. 

Antes da partida conversámos com eles e explicámos que não íamos telefonar e que se eles precisassem de falar connosco telefonavam eles. E assim fizemos. No primeiro dia tudo correu bem e soubemos das notícias via facebook, mas no segundo dia começaram os telefonemas por iniciativa deles. 


De ressalvar que estes telefonemas foram facilitados pela presença dos exploradores, que na sua maioria já têm telemóvel e que apoiaram imenso os mais pequenos em todas as suas dificuldades, nomeadamente nas situações de saudades de casa. Na 2.ª e na 3.ª noites recebi um telefonema em que os primeiros minutos foram sempre a acalmar o Daniel que chorava do outro lado da linha ora porque  tinha perdido o pano da loiça ora porque a faca tinha caído para o sumidouro de esgoto. Em bom da verdade o que realmente tinha era que encontrar um pretexto para deixar cair as lágrimas de saudades que lhe enchiam o coração mais à noitinha quando o ritmo acalmava, porque o pano e a faca voltaram a casa! 

E se enquanto mãe, o coração disparou e tive vontade de me pôr a caminho quando me disse a chorar que queria ir para casa, enquanto ex-chefe respondi-lhe com toda a calma que não chorasse, que se acalmasse e limpasse as lágrimas e que se divertisse muito porque era para isso que lá estava. 

Foi tão bom recebê-los em casa na terça feira já bem tarde, cansados e a precisar de um enorme banho de imersão, com um sorriso nos lábios e um brilho nos olhos em que tanto me revi. Ouvir cada história, cada peripécia, cada queda e arranhão de joelho que viveram nestes dias na Serra da Estrela. Perguntar se da próxima já querem ir e ouvir um coro de "siiiiimmmmmmm!". 

Tudo isto para fazer uma pequena reflexão sobre a utilização de telemóveis em actividades de escuteiros. Para nós mães e pais, e para os nossos filhos. 

Hoje em dia já não vivemos sem telemóveis. Se temos filhos adolescentes dificilmente os conseguiremos fazer compreender, mas nós que estaremos maioritariamente na casa dos 30/40 anos, já conseguimos sentir os efeitos negativos que o excesso de uso de telemóveis tem nas nossas vidas. Imaginem que vos era permitido desligar da vida e sair por uns dias sem acesso a tecnologias. Já conseguiram? Sentiram a tranquilidade que isso vos traria? Pois é! Essa é a tranquilidade mental que sentimos numa actividade de escuteiros. Manter os telemóveis ligados, disponíveis e activos a todo o momento vai impedir-nos de usufruir dessa liberdade e desse descanso mental. 

Nunca fui chefe de escuteiros em época de telemóveis, mas se voltasse, e se ficasse com uma secção em que todos já usam telemóveis, numa actividade deste género teria um saco onde todos os telemóveis eram guardados e marcava um curto período diário em que os voltava a distribuir para que cada um desse notícias a quem de direito, espreitasse as redes sociais, os emails etc. Fora isso, nada de telemóveis para ninguém. 

No contexto do escutismo considero que devemos valer-nos da tecnologia para nos facilitar a vida em termos de orientação e de emergência. Apenas isso. Tudo o resto vai causar entropia ao que é o espírito do movimento e do que pretendemos que as nossas crianças e os nossos jovens vivam. 

Por isso, se são pais de escuteiros, não se aflijam, não fiquem ansiosos por não poderem saber dos vossos filhos a toda a hora, confiem neles, confiem em quem vai com eles e deixem-nos viver! Afinal, quando nós éramos miúdos os nossos pais também não tinham como saber onde e como estávamos a toda a hora pois não?

E vocês, adolescentes e jovens escuteiros, aprendam com quem já passou pelo que vocês estão a passar, obriguem-se a aprender a desligar e vivam a vossa vida de escuteiros em pleno! E se tiverem um(a) chefe que vos impeça de usar os telemóveis em actividade, não reclamem nem fiquem zangados com ela(e), sorriam e aproveitem! Acreditem que se vão surpreender com o que vão encontrar à vossa volta, em vocês e nos outros!

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