# Crónica 12 de 2018 | Quando as crianças não querem ir à escola. O que fazer?


Tal como na semana passada, esta semana voltamos a responder a uma questão levantada por uma mãe. É bom ver esta dinâmica, receber as vossas questões e desenvolver a rubrica mais de acordo com o que vocês nos solicitam! Obrigada. Se se identificarem com a questão desta mãe por favor partilhem a vossa experiência na caixa de comentários. O vosso feedback é importante para nós!


Pergunta de uma mãe 

O meu filho começou a não querer ir à escola de manhã. Não sei se será só cansaço ou preguiça, ou se há alguma coisa que motive este desinteresse. O que devemos fazer? 


Resposta do Psicologo.pt 

Cara mãe, 

Em primeiro lugar agradeço a sua pergunta. 

Assim como é natural a motivação para ir para a escola e o entusiasmo com a aprendizagem, com os materiais escolares novos, como conhecer a turma ou com voltar a ver os colegas, como o contactar com a professora ou professores, com o brincar no intervalo e no recreio, o inverso é igualmente natural. 

Estar cansado, saturado, com frio, preguiça, com sono, sem vontade, desmotivado para ir para a escola, é igualmente natural. 

Ou seja, ambos os estados emocionais motivação e desmotivação fazem parte duma relação saudável com a escola. 

Outra coisa é se começa a haver uma grande resistência em ir para a escola, se a criança começa a somatizar, se há alterações de comportamento ou se existem sintomas fóbicos. 

Nesse caso sim, há que tentar perceber o que se passa. 

O que os pais podem fazer? 

Comecemos pela situação mais delicada: a da alteração de comportamento ou ansiedade face à escola. 

Nestas situações os pais deverão conversar com a professora e tentar compreender o que poderá ter ocorrido no contexto escolar que possa ter provocado essa mudança de comportamento. 

As razões são diversas, e poderá ser dificuldades em aprender alguma matéria, algum conflito com algum colega, alguma situação sentida com vergonha como um ralhete de uma auxiliar, uma dificuldade em expressar algo que se passa à professora, um amigo especial que mudou de escola, ter perdido material e não querer dizer, etc. 

Claro está que a cabeça de pais pensa logo no pior, mas a maioria das vezes até é coisas bem simples. 

Se não for identificado nada associado ao contexto escolar, a causa pode dever-se com o contexto familiar e o sintoma ser na escola. 

Nesta hipótese tentem conversar com a criança, não sendo necessário fazer logo perguntas diretas, mas tentando perceber o estado de humor dela, o que a tem feito feliz ou triste nos últimos tempos. 

Se a mesma não revelar algo, não significa que o quer esconder. Pode não ter consciência do que está a mexer com ela. Nesse caso tem que aguardar para que o porquê se manifeste. 

Se a criança sabe o que se passa e não quer contar, pode ser um bom sinal pois pode estar a querer não preocupar ou desiludir os pais, ou achar que resolve as coisas sozinha. 

Neste último caso, seja verdadeira e frontal e peça-lhe para lhe contar tudo porque se sente preocupada e prefere que haja transparência a confiança. E o que quer te tenha ocorrido vai-se resolver, em conjunto. 

Estas eram alguma dicas perante o eventual cenário de haver algo desencadeador de alterações de comportamento na criança em relação à escola. 

A outra possibilidade, a primeira que foi colocada, era que a reacção de rejeição matinal sobre o ir para as aulas podia dever-se apenas a falta de motivação. 

Recordo que esse estado emocional é natural e é importante sabermos lidar com ele. 

Assim, como lidar com a desmotivação face à escola? 

Num primeiro nível mais ligeiro, de uma preguiça por semana, é válido tanto o “tem que ser e vamos lá”, num treino de resistência à frustração pelo princípio da realidade, como o sentar ao lado e dizer “eu ajudo-te a vestir-te para ganhares forças”, num reforçar os mimos. 

Aliás, o ideal é dosear ambos porque as crianças precisam de autonomização e afetos. 

No entanto, tentar não oscilar entre um e outro emotivamente, ou seja, não começar por ser duro e vamos lá e depois derreter e dar mimos, ou o inverso, não começar por ser apoiante e depois perder a paciência e já chega e tem que ser. 

Se isso acontecer, respirem e racionalizem mais ambas as estratégias. 

Se a desmotivação continuar, então avaliem o porquê. Tentem perceber o que antes motivava a criança e o que agora desmotiva. 

Arranjem formas de nomear tarefas e diferenciar níveis de motivação, criando igualmente uma escala sobre isso. A escala pode ser insuficiente – suficiente – bom – muito bom, como na escola. 

Experimentem registar e até fazer desenhos sobre isso. 

Depois desta fase, se vos fizer sentido e se o vosso filho concordar, falem com a professora sobre o tema. 

Ou seja, arranjem estratégias para identificar e diagnosticar a tal desmotivação, assim como estratégias para a ultrapassar. 

Se quiserem aprofundar alguma das dicas ou quiserem colocar novas questões sobre o mesmo tema, mais específicas, basta fazê-lo e terei todo o gosto em responder. 

Espero ter ajudado. 

Abraço, 

Hugo Santos, Psicólogo 

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