# Crónica 11 de 2018 | O que devo fazer? Falta de autoestima e de concentração

[Imagem daqui]

Esta semana temos uma abordagem um pouco diferente do habitual. Recebemos um pedido de ajuda de uma mãe, nossa leitora, que partilhou as dificuldades que tem sentido com o seu filho de 11 anos. O nosso psicólogo analisou as questões e deixou dicas preciosas que esta mãe já está a colocar em prática!

Carta de uma mãe 

Miguel, 11 anos 

Nas férias de verão demos-lhe a alegria de o deixar entrar para o futebol. Algo que já pedia há muito tempo. Cedemos, e o inscrevemos!

Adora os treinos, os jogos, o treinador e a equipa. É um dos guarda-redes da equipa, posição que gosta e que o treinador diz ter muito jeito.

Em todos os dias de treino, vai com vontade e entusiasmo. 

6.º ano começou há mais de um mês. Começou concentrado, com os cadernos organizações e tudo dentro da normalidade.

Desde do início que sabia que seria castigado no futebol, caso alguma coisa corresse mal na escola.

Com o início da escola, também começou as explicações. Pediu para mudar de explicadora pois desatina com ela...porque ela é exigente e sabe que pode ser muito melhor do que é. Depois de conversámos bastante, mantivemos a explicadora.

A explicadora centra o apoio na matemática e português, e eu ajudo no resto.

Os primeiros testes foram marcados e com isso o Miguel começou a ficar mais desconcentrado.

Tem dificuldade em concentrar-se, diz que bloqueia quando chega aos testes e tem um discurso “para quê esforçar-me se eu depois não tenho boas notas”

O Miguel gosta de desporto, inglês e educação visual...em tudo o resto o 50% para ele, chega.

Já lhe expliquei que muitas vezes não conseguimos ser bons alunos a tudo mas temos que nos esforçar.

Recebeu a 1.ªnota esta última semana, um 42% a matemática. As notas da turma foram muito más. Analisando o teste percebemos que existe muita distracção. No mesmo dia, trouxe a participação de uma professora, que diz que ele não está atento nas aulas, distrai os outros e não realiza os trabalhos...ficámos tristes, desiludidos. Já o ano passado ele teve problemas com esta professora...pedimos à directora de turma para avaliar a situação.

Com estes problemas tivemos que o colocar de castigo. Anulámos uma festa de Halloween que era para ser feita em nossa casa e o treinador não o convocou para 2 jogos...ficou triste mas percebeu o porquê das coisas.

O Miguel é um bom menino, com valores, princípios, sabe estar e conversar...será que na escola está ser uma pessoa completamente diferente?...

Conversámos, questionámos se precisava de conversar com alguém...disse que não, explicou que tem dificuldades em se concentrar e até pediu que falássemos com a pediatra para aconselhar algo para ajudar na concentração.

Este fim de semanas foi para os avós, para sair um pouco da rotina. Levou coisas para estudar e até já ligou com dúvidas. Amanhã regressa a casa e sabe que iremos rever a matéria...vamos ver como se comporta.

Daqui a 1 semana faz 11 anos...já questionámos se fazíamos festa ou não...mas achamos que talvez sejam castigos a mais e não queremos que se revolte.

O que devemos fazer? 


Resposta do Psicologo.pt 


Cara mãe, 

Em primeiro lugar agradeço a sua pergunta e o pedido de ajuda que fez. 

O que me descreve referente ao Miguel é muito comum aos 11 anos e é algo frequente nos pedidos de ajuda no consultório de um psicólogo. Tratam-se, assim, de preocupações naturais sobre a aprendizagem e o futuro de um filho. 

Vamos lá, então, pensar sobre as mesmas e igualmente pensar sobre as estratégias de ação se pode tomar. Comecemos assim, pela queixa e diagnóstico. 

As preocupações apresentadas centram-se no contexto escolar, e relacionam-se com o desempenho académico e com o comportamento. 

Neste sentido, temos as seguintes 3 queixas: 

1. Resultados académicos abaixo do esperado aparentemente por dificuldades de concentração e/ ou motivação 

2. Comportamento de falta de atenção e/ou motivação no contexto sala de aula 

3. Possível auto-estima fragilizada (causa ou efeito dos resultados académicos). 

As mesmas estão interligadas e resumem-se muito bem aos pontos colocados pela mãe no seu mãe: falta de auto-estima e concentração. Eu acrescentaria um “ou”, ficando assim: falta de auto-estima e/ou concentração. 

Apresentada a queixa e definido a preocupação (ou numa linguagem clínica, definido o “problema”), levantam-se hipóteses de diagnóstico. 

Perante isto, a hipótese de diagnóstico mais provável é a de imaturidade emocional, dada a idade e o geral do cenário. Aqui entra o enquadramento teórico ao nível do desenvolvimento psicológico e igualmente o chamado “olho clínico” ou a experiência do psicólogo, para levantar esta como a primeira possibilidade. 

Ou seja, estaremos perante uma possível imaturidade emocional, onde a característica de “cabeça no ar” dos 11 anos de idade é acrescida um pouco acima da média, criando este impacto no desempenho e comportamento. O problema começa a ser o impacto secundário dessa falta de concentração, que este sim, pode ser preocupante. 

Ou seja, se a desatenção pode ser sinal de adaptação, crescimento, pré-adolescência, confronto com a realidade e escape emocional face à dificuldade emocional de gerir a frustração, o impacto negativo no desempenho e acima disso, a “desilusão”, é que são um potencial problema. 

Assim, estamos perante uma auto-estima que se está a fragilizar porque está a ser sedimentada no auto-desempenho e na auto-eficácia escolar. O problema não é assim o problema inicial, mas o problema secundário que daí surge, ou seja, não é a falta de atenção ou as notas, mas o impacto negativo no amor-próprio e no conceito de si. 

Face ao exposto, levanta-se a questão: o que fazer? O que fazer é simples. 

1. Nada de castigos. Nem meios castigos. O castigo a existir é a realidade. Não é preciso mais que isso pois é estar a desviar o problema para um problema secundário, e aí passamos a um padrão pela negativa. Ou seja, as notas por si só já são um “castigo” ou uma consequência. Retirar o futebol era retirar a possibilidade de ele crescer sem ser só focado na escola. 

2. Não se desiludam. Se querem que ele goste de si próprio, ensinem-lhe. A grande aprendizagem é modelada. 

3. Deixem-no errar. E aprender com os testes negativos. Felizmente os erros acontecem. E ele está a aprender já isso. Ainda bem. Aproveitem a oportunidade para que ele cresça. 

4. Ensinem-lhe inteligência emocional. O que são emoções, como geri-las. É assim também que se começa já a prevenir o aumento dos bloqueios nos testes. 

5. Ensinem-lhe métodos de estudo. O Miguel ainda não sabe muito bem optimizar os seus recursos. É como no futebol. Tem que ir treinando. 

E claro está, se estas frases de tristeza e desilusão consigo próprio continuarem, aí visitem um psicólogo. Como referi, isso sim, é um problema. O resto faz parte do crescimento e é saudável. 

Se tiverem mais dúvidas, basta dizer. 

Abraço, 

Hugo Santos, Psicólogo 

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