# Crónica 5 de 2018 | Da dependência da tecnologia à quebra da criatividade para brincar “à moda antiga"


Hoje em dia é comum verem-se crianças completamente "viciadas" em consolas, tablets ou telemóveis. Famílias em restaurantes que a troco de 10 minutos de tranquilidade optam por deixar que os miúdos joguem nos seus telemóveis "só para evitar birras". É o caminho mais fácil, é certo, mas para mim, enquanto mãe não é de todo a minha opção. Não vou ser hipócrita e dizer que o Daniel e a Carolina nunca jogam, não é verdade! Jogam sim, mas pontualmente, com regras e tempo [muito] limitado. Da minha experiência, e com o comportamento que observo nos meus filhos, quando permito que joguem mais facilmente se chateiam um com o outro ou com o próprio jogo, pelo que prefiro que se dediquem a brincadeiras que considero mais pedagógicas e que resultem em mais tranquilidade. Mas, cada caso é um caso. Será que o desafio que hoje encontramos ao lidar com este boom de tecnologia é vantajoso ou problemático?


O desafio de hoje relaciona com as mudanças tecnológicas que têm ocorrido nas ultimas décadas, e o impacto disso no brincar e crescimento das crianças. Antes de entrar no tema, vou enquadrar-me.  Nasci na década de 70, e sou da Geração X. 

Crescido na rua a brincar com os amigos e com meia dúzia de brinquedos que se construíam (ainda não havia o comprar) e que se partilhavam. 

Depois não só vi a surgir o boom tecnológico, como faço parte dessa geração que graças ao empreendedorismo e ao lado visionário, criaram e desenvolveram um mundo novo, o da tecnologia. 

Ao mesmo tempo, vi a queda de pilares sociais que pensava serem inabaláveis, com as crises não só económicas como igualmente as de valores. 

Dito isto, já posso avançar no tema de hoje, e mais facilmente perceberão as minhas opiniões e posição. 

A dependência tecnológica já existia no meu tempo de criança. Eu passava horas e horas a fio, todo o tempo que tinha, agarrado a qualquer jogo ou brincadeira. A tecnologia é que era outra. Era sobretudo touch e sem fios (quer dizer, o pião tinha fios, mas chamávamos guita; e havia muito touch a jogar à apanhada ou ao corredor da morte). 

E éramos tão criativos como se é agora. Inventávamos brincadeiras mas jogávamos todos os mesmos jogos. Aliás, se havia algum chico esperto que era mais “criativo” nas regras do jogo levava logo um calduço por ser batoteiro. 

A grande diferença entre o tempo de infância da geração x e a atualidade, foca-se em 2 pontos centrais, os quais depois trazem várias repercussões: 

1. O principio da realidade 

2. A estimulação externa 

O princípio de realidade, um conceito freudiano, é nada mais que o imperativo que a realidade impõe sobre o mundo subjetivo. 

Dito de outra forma, há 30 ou 40 anos atrás, o mundo parecia ter regras e limites mais claros e bem definidos. Vivia-se aparentemente mais com os pés na terra. Isto, claro está, porque havia uma realidade virtual e globalizante que ainda não existia, e porque a ignorância em que se vivia tinha vantagens na gestão da incerteza e dos medos. 

Estatisticamente, havendo uma realidade aparentemente mais diminuta, será mais fácil a adaptação e previsão. 

Por outro lado, a estimulação externa não tinha nada a ver com o que é hoje. Não havia tanta coisa a puxar a nossa atenção e a estimular a nossa mente e corpo, e por isso, comparativamente, o conceito de felicidade e de infelicidade, ou de independência e dependência, eram outros. 

Perante isto, o que eu vejo hoje em dia são novos desafios para as nossas crianças, numa realidade aumentada e cheia de velozes mudanças e incertezas. Se são desafios para eles, também o serão para nós pais, o que é ótimo. 

Felizmente, os nossos filhos têm-nos a nós, para enfrentar tudo isto. E nós temo-los a eles para dar significado e propósito a esta caça aos Pokémon, mas com fisga, que é ser pai e mãe. 


Abraço, 

Hugo Santos, Psicólogo 

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