# Maternidade | Ser mãe hoje

[Na foto, o Daniel e a Carolina com o saco que doámos para a campanha da Missão Continente deste fim de semana]

Quando o Daniel e a Carolina foram para a creche tinham 7 meses. A adaptação foi excelente e não houve um único dia em que os deixasse a chorar. Sempre imaginei que seria isso que me iria incomodar mais e me ficasse na cabeça durante todo o dia mas nunca aconteceu. Parti por isso do pressuposto que a angústia que sentia todos os dias de manhã ia passar, que me ia adaptar a esta nova fase da minha vida e que tudo se tornaria mais fácil. Mas não passou. Há dias melhores, outros piores, mas a pouco mais de dois meses de fazerem 5 anos, continuo a senti-la. Mas afinal, se eles estão bem, a que se deve esta angústia?


Na altura comecei a tentar racionalizar o que sentia, e percebi que na fase inicial se resumia a um sentimento de injustiça. Sentia que não era justo ter que pagar para deixar os meus filhos com terceiros, sendo que eu era paga para não estar com eles. Reduzia a minha actividade profissional a isto. Nesta fase, o meu trabalho estava tão somente a impedir-me de estar com os meus filhos.

Com o passar do tempo este sentimento acabou por ir sofrendo alterações. O que sinto hoje em dia é um profundo sentimento de injustiça para com o sistema. Sei que pouco ou nada posso fazer para mudar, mas não consigo deixar de expressar o que sinto. A verdade é que Portugal não tem incentivos à maternidade. E quando falo de incentivos falo dos incentivos a sério, dos que nos permitem passar tempo de qualidade com os nossos filhos. Porque não, não o podemos fazer.

É nos primeiros anos que os filhos mais precisam de nós. Primeiro precisam que lhes peguemos ao colo, que os alimentemos, que lhes prestemos todos os cuidados primários. Que tenhamos tempo para lhes dar mimo, para simplesmente poder parar e ficar com eles ao colo. Depois crescem um pouco e precisam que tenhamos tempo para eles, para conversar, para brincar, para sair com eles à rua. Para não ter 1001 tarefas que se sobrepõem ao tempo para estar com eles e que é sempre ou quase sempre dividido com o tratar da roupa, o fazer o jantar, o preparar refeições para o dia seguinte ou limpar a casa. A verdade, nua e crua, é esta. Não é permitido às mães [e aos pais] terem tempo para os filhos.

Trabalhar num horário completo todos os dias da semana implica para a maioria de nós, sair cedo e chegar tarde. Quando chegamos, temos que dar banhos, arrumar coisas que ficaram por arrumar de manhã, preparar jantar, tirar loiça lavada da máquina, apanhar roupa, preparar roupas e almoços para o dia seguinte, e depois arrumar a cozinha, jantar, deitar as crianças. Claro que, mesmo que com ajuda do marido, no meu caso, entre estas tarefas pouco tempo sobra para dedicar realmente tempo aos meus filhos. Para parar tudo, e estar com eles, brincar com o que eles quiserem, fazer o que eles me pedirem. Sem interrupções nem sobreposições.

Os miúdos crescem com os pais nesta rotina, o vínculo que criam é cada vez mais fraco, e um dia deparamo-nos com adolescentes que não comunicam com os pais e com pais que não sabem como lidar com os seus filhos adolescentes. A vida não nos permite verdadeiramente sermos pais. E enquanto há umas gerações quando isto começou a acontecer, tínhamos o apoio dos avós que colmatavam algumas das ausências dos pais, hoje não há. Os avós também trabalham, e as crianças passam o dia entregues a educadoras e auxiliares que por muito bem que façam o seu trabalho, não são os pais de todas aquelas crianças.

O meu medo, enquanto mãe, é perceber que eles cresceram e sentir que não aproveitei o tempo que poderia ter tido com eles. Cada vez sinto mais que realmente eles crescem demasiado depressa, e que a minha vida anda a uma velocidade que não me deixa estar com eles tanto quanto gostaria.

Os fins de semana são cheios de coisas que durante a semana não conseguimos fazer, e mesmo que nos permitam fazer coisas diferentes com eles, o tempo nunca chega. Continua a haver toda a gestão da casa, das refeições, das compras que temos que fazer, e há ainda que encontrar um bocadinho que seja para descansar. Dou por mim com frequência a pensar que já é segunda feita outra vez e que o fim de semana passou a voar e não deu para nada. Este fim de semana fizemos muitas coisas, mas não fizemos tudo o que eles nos pediram. Não tivemos tempo para fazer um bolo, coisa que o Daniel adora e que me pediu várias vezes, e não tivemos tempo para nos sentarmos a brincar com eles com uns jogos novos que receberam e que estão desejosos de experimentar. Deitaram-se a falar nisso, cansados, mas a perguntar se amanhã podíamos brincar com os jogos novos. E nós, para não lhes respondermos que só vamos conseguir [provavelmente] no fim de semana, dissemos que íamos tentar.


Gostava que houvesse uma forma de faltar ao trabalho sem penalizações com a justificação “ficar com os filhos”. Gostava de poder, mesmo que não fosse todos os dias, decidir que não me apetece levá-los ao colégio, que fico com eles, sem horários, sem obrigações domésticas, sem tarefas para cumprir. Que fazemos apenas o que nos apetecer. Que brincamos, que temos liberdade total. E tenho a certeza que ao fim do dia nos deitávamos muito mais felizes, eles, e nós pais, que com o sentimento de dever cumprido, tínhamos tido um dia feliz com os nossos filhos.

1 comentário:

Isa disse...

Sem dúvida que este é um sentimento transversal à maioria dos pais... o tempo voa, eles crescem e o tempo foge-nos entre os dedos (e entre as máquinas de roupa, refeições e afins!)!