Crónica #9 | Como explicar a morte aos nossos filhos?


Esta semana a habitual crónica do Psicologo.pt não saiu na 6.ª feira. Na 6.ª feira tirámos o dia. Todos. Ficámos em casa a descansar e a usufruir da companhia uns dos outros. A lidar com várias noites mal dormidas após a perda de uma pessoa que nos era muito querida. Foi a primeira perda a sério na vida do Daniel e da Carolina. A primeira vez que foi necessário enfrentar uma coisa que é difícil para todos, a morte.

Como explicar a morte aos nossos filhos?

Hoje vamos falar da morte. [Pausa.]

Sim, é um tema duro porque nos assusta. Só ler a palavra invoca o medo. Queria assim dizer que para responder à questão hoje colocada, terei que consigo enfrentar este medo humano: o medo da finitude. Vamos enfrentá-lo.

Em primeiro lugar, quero recordar que nada é eterno. Nem o próprio universo. O tempo de duração é que muda. A própria eternidade ou infinito é como uma estrada que não vemos o fim, mas que não significa que não tem fim. Tem é uma dimensão que nos ultrapassa.

Por outro lado, tudo é eterno. Nada se repete, nada é igual, o momento em que está a ler estas palavras não se vai repetir nunca mais, e por isso existirá para sempre.

Demos a volta. Estamos no ponto de partida, mas agora mais tranquilos.

O medo vai lá estar sempre. Podemos é liberta-nos dele e simplesmente aceitar e viver. A vida é isto. A vida está a acontecer.

Este pequeno exercício de reflexão e auto-regulação emocional, face ao tema de hoje, recorda os pais que antes de explicarem aos seus filhos o tema morte, é importante eles próprios refletirem sobre a temática.

Depois disso, estarão preparados para a fase seguinte.

As explicações devem seguir o sistema de crenças parental, seja de carácter espiritual ou científico.

Para ajudar as crianças a conceptualizarem a vida e a morte, é importante criar uma história ou uma narrativa, para ser mais fácil a gestão interna.

Por exemplo, algumas narrativas mais comuns são as seguintes:

- Narrativa espiritual: quando alguém morre, vai para o céu, onde vivem os anjos que olham por nós; quando alguém parte, faz uma viagem para o universo e transforma-se numa estrela daquelas que vemos no céu.

- Narrativa científica: quando alguém morre, o seu corpo transforma-se em parte da natureza, como uma árvore.

A morte pode ser um conceito assustador para crianças pequenas, em idade pré-escolar ou entrada na escola, devido ao estádio do desenvolvimento cognitivo, onde o conceito de irreversibilidade se impõe ainda sem recursos internos de auto-gestão emocional.

Nesta altura e também mais tarde, surge também com frequência o medo de perder os pais.

Deste modo, voltamos ao início do texto: a morte assusta-nos.

E é isso que uma criança sente quando lida com o tema. Tem medo.

Explicar a morte aos nossos filhos é fazer com eles uma viagem por 3 fases:

  •     Narrativa: arranjar uma explicação simbólica sobre o que acontece, enquadrada no sistema de crenças e valores dos pais.
  •      Identificar as emoções: perceber com eles os sentimentos que possam surgir, como o medo (que podem surgir, por exemplo, em forma de pesadelos). Explicar que é natural e faz parte. O medo é uma reacção natural do ser humano e serve para nos defendermos e proteger. Ter medo da morte serve para nós cuidarmos da saúde e prolongarmos a nossa vida, e igualmente para aproveitá-la.
  •     Ajudar no luto: de acordo com a narrativa escolhida e criada, é importante criar-se rituais de luto e libertação do medo. Ou no caso de ter havido alguém a partir, rituais de despedida e de libertação da pessoa que viaja (seja para o céu, para o universo, para a natureza ou para a memória de quem recorda com saudades).

 Os rituais no caso das crianças deverão ser ajustados às ferramentas que elas costumam usar. Podem ser os desenhos, as histórias, as frases ou textos.

No caso do medo ou pesadelos se prolongarem, então o aconselhável é trabalhar directamente o medo.

Já não é indicado trabalhar o tema-causa (a morte) mas sim o sintoma. É como quando a febre sobe muito e o que há a fazer é tratar a febre, independentemente da causa.

Como é que se trabalha o medo numa criança?

Bem, a questão daria para outra crónica.

As estratégias são similares: simbolismos e rituais.

Há alguns truques que eu uso em consultório como dar uma “lanterna da coragem” para a criança andar com ela no bolso e iluminar o escuro, ou criar uma fórmula mágica (ou lenga-lenga) onde a criança diz uma frase escrita no papel do tipo: “nem é tarde nem é cedo, eu sou corajoso e vou vencer o medo”, ou ainda criar um aliado que é o guerreiro do medo, do qual o medo foge “a sete pés” e que vai ser o seu guardião até que o medo desapareça.

Sobretudo, em tudo isto, há um outro ingrediente principal: o amor.

É com amor que nos agarramos à vida e vivemo-la, libertando quem parte e deixa saudades, e enfrentado o medo pelos que amamos.

E é com amor que se explica aos nossos filhos o que é a morte.

Afinal há algo eterno: o amor!

Bem-haja,
Hugo Santos
Psicólogo – Psicoterapeuta


Na semana passada falámos aqui sobre crianças diferentes e como devemos ensinar os nossos filhos a lidar com a diferença. Queremos saber quais são os temas, dúvidas, questões que gostariam de ver aqui discutidos. Enviem-nos o vosso contributo.

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