Crónica #5 | Arrumações e desarrumações. Como lidar com este tema na infância


Na semana passada lançámos o desafio para que nos fizessem chegar dúvidas, perguntas, temas que gostassem de aqui ver discutidos e sobre os quais gostassem de ter a opinião de um profissional. Hoje trazemos a primeira crónica que aborda um tema que provavelmente muitas de nós vamos achar proveitoso. Como lidar com a arrumação/desarrumação que os nossos filhos criam ao brincar?


Pergunta duma mãe: “Devemos impor aos filhos que arrumem sempre todos os brinquedos que desarrumam ou devemos, por exemplo, estipular que arrumam num determinado dia da semana?”
   
Cara mãe, em primeiro lugar obrigado pela sua pergunta, que é bastante pertinente J

Começo, como habitualmente, por enquadrar a questão, não dando só uma receita mas pensando em conjunto sobre o tema.

Esta é uma questão que nos levantamos frequentemente enquanto pais e que mesmo parecendo simples, relaciona-se com dois pontos centrais: (1.) o que é que queremos ensinar aos nossos filhos em termos de valores e aprendizagens e (2.) qual é o nosso modelo educativo?

Começando pelos valores e aprendizagens, é determinante a definição de regras e objectivos. A educação é um trabalho de equipa entre pais e filhos.

Assim, tal como um bom chefe não impõe algo ao seu colaborador, uma mãe ou pai que se sentem seguros e tranquilos consigo próprios também não impõem. O que eles fazem é definir regras, fundamentadas e baseadas em princípios educativos (os tais modelos), e o cumprimento delas traz recompensas ou não. É pura negociação e troca.

Os modelos educativos, por sua vez, são visões sobre o que os pais consideram o melhor para o crescimento e futuro das suas crianças, e igualmente para eles próprios. Trata-se da visão e missão da “empresa” família.

Agora respondendo directamente à pergunta: não se deve nunca impor, mas sim definir regras e excepções, e negociar depois o concreto e o dia a dia.

No modelo educativo que eu advogo, a grande função dos pais é ajudarem os filhos a crescerem e a não precisarem dos pais, e por isso a autonomia é uma área fundamental desta visão, porque prepara-os para o futuro e para a realidade.

Assim, as crianças devem aprender desde cedo a respeitar não só as coisas dos outros mas igualmente as suas próprias coisas. E respeitar não é só usar. Neste caso, é usar e arrumar, cuidar, manter, organizar, planear.

Brincar é um processo e não apenas um momento, ou vira simples consumo.

Para além disso, a casa é de todos e todos colaboram para que esta funcione como deve de ser.

Perante isto, concordo com a regra de quem desarruma arruma, logo desde o início, com estratégias adaptadas à idade. Esta arrumação deve ser diária.

Complementarmente, faz sentido um dia da semana para organizar e planear. Um dia em que com mais tempo se arruma melhor as coisas, avalia-se se a arrumação está correta ou se faz sentido mudar, trata-se da manutenção dos brinquedos e espaços de arrumação e planeia-se como serão as próximas brincadeiras.

Bem-haja,

Hugo Santos
Psicólogo

Na crónica da semana passada foi abordado o tema de partilha de quartos por irmãos de sexos diferentes. Podem ler a opinião do Hugo aqui.

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