Considerações de balnéario


Um balneário de um ginásio é matéria prima em bruto para uma espectacular tese de doutoramento em sociologia. Vêem-se coisas do arco da velha, coisas que preferíamos nem ter visto, coisa que nos deixam vontade de interpelar os outros. Eu, só observo. Um dia, talvez escreva uma tese. Hoje começo pelo preâmbulo.

Há as que se apresentam sempre impecáveis, de unhas cuidadas e impecavelmente pintadas nas mãos e nos pés, sem um pêlo em todo o corpo, pelo menos do pescoço para baixo. E há as que têm o verniz estalado, ou as unhas por pintar, e uma densidade pilosa demasiado elevada em zonas do corpo que a dispensavam. Há as gordas que se tapam e sentem vergonha do seu corpo, e há as gordas que passeiam alegremente por todos os recantos, como vieram ao mundo, e quem não gostar que não olhe. Também as há assim magras, umas mais musculadas outras menos, umas mais à vontade com o seu corpo outras menos. As que põem a toalhinha no chão para não tocarem com a pele em nenhuma superfície, e as que se sentam nuas nos bancos corridos por debaixo dos cacifos. As que apertam os ténis apoiando os pés em cima desse mesmo banco. As que tentam não ocupar muito espaço em particular quando é hora de ponta e está muita gente, e as que se estão a borrifar para os outros e espalham todos os seus pertences pelo espaço que consideram que precisam. Há as que se penteiam cuidadosamente depois do duche e recolhem os cabelos que caíram para deitar no caixote do lixo e as que tiram os cabelos da escola e deixam junto ao espelho ou deitam no chão. As que tomam banho depois do treino, se vestem a correr e desaparecem, e as que se besuntam com 3599 cremes diferentes e depois de vestidas ainda aplicam maquilhagem como se fossem para um casamento, com toda a calma do mundo. E há as que treinam, suam e quando se despem borrifam perfume para cima, vestem-se e saem, as que tomam duche com o cabelo apanhado no alto da cabeça, ainda a pingar de suor da aula que fizeram e que seguem viagem depois de uma vigorosa escovadela. Há as que encafuam tudo a monte num cacifo, e as que levam dois cadeados e usam dois cacifos, um para a roupa a calçado da rua e outro para o equipamento de ginásio e produtos de banho.

A mim, pessoalmente, nenhuma me incomoda, nenhuma me faz sentir mal, com excepção das que recorrentemente usam o duche reservado a pessoas com mobilidade reduzida, mesmo que todos os restantes 14 estejam vagos. A falta de respeito pelo outro tem limites.

1 comentário:

Isa disse...

Fez-me lembrar os tempos em que eu andava no ginásio! Ao contrário de ti, a mim, algumas delas incomodavam-me! Nomeadamente as que não eram cuidadosas em não deixar vestígios da sua sujidade pelo caminho: cabelos, pensos higiénicos, etc. E essa do chuveiro para deficientes era abaná-las bem abanadas. é preciso ser-se egoísta e não conhecer minimamente a realidade para fazer tal coisa!