A saúde oral em Portugal é só para ricos!

Em Portugal, ter saúde não é para todos. Sim eu sei, não é só em Portugal, há muitos outros países em que é assim, bla bla bla... mas a verdade é que foi em Portugal que eu nasci e cresci, é em Portugal que eu vivo, trabalho, pago impostos, e a verdade é que se dependesse do Sistema Nacional de Saúde estava bem tramada! Sempre ouvi pessoas que defendem e pessoas que atacam o SNS e embora já tenha usado esse meu direito de recorrer a ele, desde que nasci que tenho ADSE e sempre foi o meu sistema de saúde principal. Sou filha de um professor, e quando deixei de usufruir da ADSE não foi por deixar de ter direito como descendente, mas porque comecei a trabalhar também para o estado, e tive direito a ter a minha própria ADSE como titular, para a qual desconto desde então um valor considerável todos os meses.

Com a ADSE, pensava eu, estava tranquila. Excepção feita à medicina dentária, que parece ser o parente pobre no que toca a saúde neste país. No SNS foi lançado um projecto piloto em Setembro do ano passado que colocou 13 dentistas a trabalhar que para já estarão disponíveis nos centros de saúde que aderiram ao projecto e apenas a assistir "pacientes que tenham patologias crónicas, a nível de diabetes, neoplasias, doenças respiratórias crónicas, doenças cardiovasculares" [notícia completa aqui].

Com a ADSE a rede de prestadores convencionados nesta especialidade médica é fraca e resta-nos a opção de recorrer a clínicas como particular, pagar o acto médico na totalidade, entregar as facturas na ADSE e aguardar pelo reembolso de uma percentagem. Para que tenham noção de valores, numa consulta de 80€ recebem-se cerca de 23,5€ de reembolso, numa opção optimista no mês seguinte aquele em que gastámos o dinheiro.

Até aqui tudo bem. Sai caro, mas também não vamos ao dentista todos os meses, e lá vamos arranjando forma. Só que há um dia em que temos filhos, e a forma com que antigamente íamos arranjando maneira de pagar as consultas de dentista, deixa de existir. Partimos um dente a mastigar, e pensamos... que se lixe, é um dente desvitalizado, não me incomoda, deixa-o andar que um dia destes "quando der" arranjo-o. Só que o tempo vai passando e nunca chega o dia em que dá. 

Um dia acordas de manhã e tens uma dor de dentes, coisa que nem sabias bem o que era. Andas assim a ameaçar crise um dia, a tentar perceber o que é, no segundo pensas que talvez tenhas mesmo que ir ver o que é, e no terceiro já não consegues mastigar ao pequeno almoço e a primeira coisa de seguida é ligar para o dentista.

Marcam-te consulta logo para esse dia, aguentas estoicamente o dia todo, vais largando uns palavrões de cada vez que pensas que com o dinheiro que vais gastar na consulta podias encher o frigorífico para duas semanas, mas o que tem que ser tem muita força e lá vais ao fim do dia tratar do problema.

Só que o problema não é da dimensão que o pintaste. A consulta é demorada e complexa, e quando finalmente termina dizem-te que tens uma infecção numa zona inacessível, que muito provavelmente o teu dente não tem salvação e que há uma elevada probabilidade de depois das próximas duas consultas para concluir o tratamento, teres que fazer uma extracção e colocar um implante. [Neste momento já tinha percebido que havia fortes probabilidades de me tornar na próxima desdentada do nosso país]. Quando perguntas quanto é que custa um implante, ouves a resposta que mais temias: 700€. Engoles em seco para não largares um belo foda-se [e desculpem-me a expressão mas teve mesmo que ser!] e vais para casa encharcada em clamoxil e brufen 600 por duas semanas, para digerir toda esta informação. [e claro, com dor de dentes na mesma, porque a infecção está por lá e continua a doer como o raio!]

Na manhã seguinte, cheia de boas intenções, pesquisas médicos dentistas com convenção com a ADSE decidida a largar a clínica onde vais tratar dos dentes há 33 anos e onde já largaste milhares e milhares de euros ao longo da vida, em tratamentos, aparelhos de ortodôncia e afins. Pesquisas, e pesquisas, e pesquisas e percebes que há poucas e nenhuma te inspira verdadeiramente confiança. De seguida, pesquisas seguros de saúde e pões a hipótese de fazer um para complementar a ADSE. Percebes rapidamente que também não é solução porque os co-pagamentos para implantes são tão elevados que não compensam o seguro em si. E por último, descobres que a ADSE não comparticipa implantes dentários. Placas, coroas, pontes sim, implantes não que isso deve ser coisa de gente fina e os funcionários do estado não precisam de nada disso!

Concluis assim da pior forma que a saúde oral neste país é só para ricos, e informas os fieis seguidores que como neste momento não tens apenas este dente para tratar mas outros 3 que estão partidos, fora os que ainda não deste conta mas que podem estar a precisar de tratamento [sim os meus dentes são uma porcaria, passam a vida com cáries e a precisar de tratamento e por isso é que vou ao dentista desde os 5 anos!], muito em breve poderá dar-se o caso de começarem a perceber nas minhas fotos que deixei de me rir. E não. Não é por estar de trombas. É porque fiquei desdentada porque a saúde em Portugal não é para a carteira de qualquer um!

[Pronto! Já desabafei! Bom fim de semana]

1 comentário:

Eva Vacas disse...

Essa realidade já a conheço a muito com 34 anos tive de fazer um tratamento enorme porque os meus jo qual acabei por ter que retirar quase todos os dentea (dois anos de tratament) acabei por fazer um seguro que ficou muito caro alem das consultas, mas se não fosse assim hoje seria uma desdentada... (seguro que não contempla inplantes),acabei por pôr protese...deveriamos ter direito no sistema nacional de saúde, mas acho que não dá jeito ainda não percebi é a quem? ?