Crónica #1 | Querido Pai Natal... Socorro!!!


Enquanto pais temos dúvidas. Enquanto pais é frequente depararmo-nos com situações que nos podem fazer questionar qual a melhor forma de gerir determinadas circunstâncias, dramas infantis, comportamentos... Enquanto mãe, já me questionei vezes sem conta se estou a tomar as melhores decisões, se estou a saber gerir da melhor forma as situações que surgem, se estou a fazer um bom trabalho na educação dos meus filhos. A boa notícia é que a resposta é simples: é normal! Faz parte da maternidade / paternidade. Por aqui, inauguramos hoje uma rubrica que nos vai trazer dicas fundamentais para lidar com algumas destas situações.

Conheci o Hugo na adolescência. Nascemos e crescemos na mesma terra e tivemos actividades e grupos de amigos em comum durante alguns anos. Depois crescemos, perdemos o contacto, e há uns anos reencontrámos-nos. O Hugo é psicólogo [dos bons!], e tem duas coisas que ajudam a que comunicação entre nós os dois consiga fluir melhor: conhece-me bastante bem e tem lá em casa um casal de gémeos com 7 anos! Para mim só podia ser ele o autor desta rubrica! Hoje fala-nos sobre como gerir as expectativas das nossas crianças em relação aos presentes de Natal! Ora leiam!

"Pois é, Natal à porta é sinónimo de listas de presentes intermináveis que as crianças de variadas idades entusiasticamente querem receber este ano.

Se os pais e as mães fossem satisfazer esses acesos desejos, não haveria não só orçamento familiar que chegasse, como nem sequer haveria saco do Pai Natal que desse para tanto brinquedo, armário ou estante para os arrumar, ou sequer tempo para os mesmos virem a ser desfrutados.

Facilmente percebemos que as crianças são um target preferencial das vendas desta época do ano. Basta entrar num qualquer hipermercado e deparamo-nos de imediato com a “montra” principal: brinquedos e mais brinquedos.

E o marketing não é feito preferencialmente para o comprador, os pais, mas sim para o cliente final, a criança, mostrando assim que as empresas bem conhecem o poder dos mais pequenos em argumentar e pedinchar.

Basta ouvir uma criança de 7 anos para se ficar impressionado com o conhecimento da mesma sobre as marcas dos brinquedos, sobre o que cada um faz, para que serve, o que traz, etc.

Os meus parabéns às agências de publicidade. Excelente trabalho.

Peço igualmente desculpa às mesmas porque também vou fazer o meu trabalho e vou contrariar um bocado esta tendência consumista.

Aqui vai.

Na psicologia há um princípio simples: o que é observado não é mau nem bom, por si só. São observações ou factos. E é a partir daqui que se parte.

Vejamos, assim, alguns dados observados:

Observação : as crianças hoje em dia são um target preferencial das campanhas publicitárias natalícias

Observação 2: as crianças solicitam listas de variados presentes aos pais para o Natal, baseado nesta pressão social e publicitária (vinculada não só pela televisão, pelas revistas e folhetos publicitários, pela disposição das lojas, como igualmente pelos pares, isto é, pelas outras crianças com quem estão diariamente na escola).

Recordando o princípio da psicologia atrás referido, por si estes dados observados não são bons nem maus. São observações, que têm vantagens e desvantagens.

Assim, as dicas que apresento de seguida são uma resposta à seguinte questão: como é eu posso, como pai ou mãe, gerir os pedidos de presentes que os meus filhos fazem para o Natal, tornando este momento como positivo? Ou seja, como é que eu posso aproveitar a lista ao Pai Natal pela positiva?

Dica 1: se não os vencemos, aliamo-nos a eles (neste caso, aos filhos)

Por estranho que possa parecer aos pais este novo mundo consumista da criança, a realidade é que mesmo que se evite acender a televisão lá em casa, este é o mundo deles.

No nosso tempo não era assim. Novamente este é um facto observado e não é bom nem mau por si só. Tínhamos vantagens e desvantagens.

Saudosismos à parte, este é o mundo actual e eles estão a crescer nele.

Em vez de apenas ficarmos a tentar contrariá-lo podemos tentar compreendê-lo.

Dica 2: perceba realmente o que eles querem para o Natal

Já viu com eles a publicidade na TV? Já os ouviu explicar para que serve o brinquedo? Já reparou quais são os desenhos animados que eles vêm? Já percebeu que brincadeiras é que eles fazem com os brinquedos? Já tentou compreender sobre o que é que eles falam ou brincam lá na escola?

Vale a pena oferecer tempo para isso. Vai-se surpreender. É mesmo um mundo novo. Um bocado estranho na verdade. Pelo menos no princípio. Eu cá continuo a achar muito estranho certos desenhos animados e brinquedos. Não consigo achar-lhes piada nenhuma. Mas outros confesso, que teria adorado ter quando era miúdo. E outros ainda que já existiam no meu tempo e continuam a existir.

Dica 3: ajude-os a fazer contas sobre os brinquedos que preferem receber no Natal

Esta é uma boa altura para os miúdos começarem a treinar a “fazer contas à vida”, a diferenciar o ideal do real, e igualmente treinarem matemática.

O critério pode ser por orçamento (quanto é que os brinquedos custam individualmente e no seu somatório), pode ser por número de brinquedos (quantos brinquedos será que vão ter), por prioridades (quais são os mais importantes a receber).

Dica 4: antecipe cenários e pergunte “Porquê?”

Esta dica é menos praticada e é das mais importantes. Não basta que eles escolham as prioridades dos brinquedos a receber. É importante também três passos:

1. Tempo de reflexão: que pensem e reflictam se são mesmo essas as prioridades

2. Porquê: que sejam questionados quanto ao porquê da escolha e vão aprendendo a perceber as suas escolhas

3. Antecipação de cenários: ensinar-lhes que se escolherem um brinquedo mais caro terão a desvantagem de ter menos brinquedos e que se escolherem mais brinquedos não conseguem se calhar o mais desejado; e que podem não ter certeza absoluta das escolhas ou podem arrepender-se.

Dica 5: ensine-os a oferecer presentes (e não só a receber)

A última dica é para treinar competências afectivas e emocionais.

Pode fazer com os seus filhos uma lista dos presentes que eles vão oferecer ou simplesmente ajudá-los a pensar e escolher o que vão dar às figuras mais próximas.

Ok, os desenhos são sempre uma boa solução. Mas puxe a fasquia mais para cima.

Se eles ainda não conseguem chegar ao conceito de serem eles também a oferecer, então insira-os nas suas escolhas.

Ou seja, o pai pode pedir ajuda ao filho ou filha sobre o presente que há-de dar à mãe, perguntando-lhe “o que achas que a mamã vai querer receber no Natal?”. Face a um clássico “não sei” (se for rapaz é o mais certo; o “Y” não falha), vá dando graduais ajudas tais como (ajuda com pergunta aberta mas mais dirigida) “quais são as coisas que a mãe gosta mais” ou (ajuda com pergunta fechada) “achas que a mamã vai gostar mais de receber roupa ou um perfume”.

E aqui ficam 5 dicas, todas com um segredo: tratam-se de estratégias sempre baseadas na interacção entre pais e filhos pois afinal os melhores presentes de Natal não se compram. E chamam-se amor, sorrisos e alegria :)

Feliz Natal, com muito amor!!!" 

Hugo Santos
Psicólogo – Psicoterapeuta

1 comentário:

Xica Maria disse...

Gostei muito de ler!
O meu filho ainda não pede nada (tem 4 anos). Se lhe pergunto o que quer de presente não sabe responder. Não é uma criança com imensos brinquedos, tem os essenciais e quase todos oferecidos pela família e chegam bem.
Lembro me que quando era pequenita queria muito certos brinquedos mas como não havia muito dinheiro não os tinha pelo Natal. Como eu, há muita gente então parece-me que há aquela vontade mesmo dos próprios pais em comprar tudo o que não tiveram é mais ainda. Eu tento não ser assim. Sempre que saímos não lhe compro nada nem ele pede.