Bipolaridade [matinal] maternal


Há aqueles dias em que simplesmente sentes que não devias ter saído da cama. Hoje é um deles! Depois de um dia destes ter escrito uma carta ao meu filho numa manhã em que ele acordou particularmente bem disposto e carinhoso, hoje se a escrevesse, seria com o conteúdo totalmente oposto.

Hoje foi ele o primeiro a acordar. Levantou-se e veio ter connosco. Bem disposto e sorridente, deu beijinhos e abraços aos dois e descemos para tomar o pequeno almoço. A irmã acordou uns minutos mais tarde e juntou-se a nós. Pediu-me para jogar só um bocadinho enquanto preparávamos o pequeno almoço e como nunca pede, deixei. Quando o chamei para a mesa, desligou o iPad e foi para a mesa à primeira. Ao chegar à cozinha disse que lhe doía a boca e quando fomos ver, descobrimos uma afta. Explicámos-lhe que por vezes pode acontecer e que quando subíssemos lhe púnhamos um medicamento para as aftas para melhorar. Começou a choramingar, a dizer que não queria comer nada porque doía mas com calma acabou por beber o leite. A fatia de bolo foi embrulhada e colocada na marmita para levar para a escola.

Vestiu-se tranquilamente e foi para baixo para se calçar, e aí decidiu que não queria calçar as botas nem vestir o casaco. Não aqueles. Expliquei que hoje ia levar aquele casaco e aquelas botas porque depois da escola íamos ao cinema e ele tinha que ir quentinho. Continuou a teimar que não queria. Vesti-o e calcei-o com ele num pranto como se o mundo estivesse a acabar. Despiu o casaco assim que acabei de o vestir. Vesti outra vez, e ele sempre a chorar e a ameaçar que voltava a tirar. Desceu as escadas assim, e na garagem, voltou a começar a deixar descair o casaco no ombro em tom de desafio. Depois não queria entrar no carro. E por último, já sentado pelo pai na cadeira, não deixava colocar o cinto na cadeira.

Sair de casa em contra-relógio e ao mesmo tempo ter que lidar com birras deste género deixa-me tão desgastada, tão triste, tão descompensada, que passei a manhã mal disposta e com uma ligeira dor de cabeça. Agora, que já acalmei, anseio pela hora de chegar a casa com ele, de me sentar a conversar sobre o que se passou e de lhe dizer qual vai o castigo que vai ter. Vai ficar duas semanas sem autorização para jogar no iPad. Uma coisa que gosta de fazer, que sei que me vai trazer mais birras nos momentos em que peça e não tenha autorização, mas que vai ter que ser privado para que perceba que as birras não lhe trazem nada de bom.

Passar do momento de desespero em que só temos vontade de virar costas e sair de ao pé deles para não nos passarmos ainda mais, para o momento em que só nos apetece chegar ao pé deles, pegar-lhes ao colo e enchê-los de beijos, pode ser coisa de segundos. E é a isto, que eu chamo de bipolaridade maternal.

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