Sobre gritos [ou tentar que deixem de existir]

Como vos contei aqui, resolvi encher-me de coragem e aderir ao desafio da Magda - O Berra-me baixo! Até já pus o selo ali à esquerda, como (mais uma) forma de me recordar de cada vez que abro o blog, que quero mesmo levar este desafio a sério. Hoje recebi mais um email com ideias e sugestões, e com um TPC para o fim de semana, mas antes de falar dele, prefiro começar por avaliar estes últimos dias.

Tenho tentado não gritar no momento em que tenho vontade de o fazer. E tenho tentado perceber o que é que me faz gritar, logo após ter recuperado o controlo e ter conseguido não gritar. Vou-vos dar um exemplo: quase todos os dias, enquanto vamos no trânsito de fim de dia a caminho de casa, a determinada altura o Daniel desata a berrar, a chorar, a espernear, a dar pontapés nas costas do banco... todos os dias tento perceber porquê, todos os dias lhe pergunto, todos os dias fico exactamente na mesma. Ele faz isto durante uns minutos, e normalmente acaba por se calar. Há dias  em que consigo ignorar, deixar passar, mas há outros, em que a gritaria é tal, que até a irmã começa a chorar assustada, e acabo por lhe dar dois berros para ver se se cala! Reconheço que  tenho gritado com ele nestas e outras circunstâncias bastantes vezes, e que não sei o que fazer para me controlar, a  mim e a ele, quando acontecem estes episódios.


Outra situação: ontem, estava sózinha com os dois na hora de tomar banho e despachar, rotina que tem que ser sempre feita a velocidade acelerada, sob pena de deitar os miúdos demasidado tarde. Comecei a preparar as coisas para eles irem tomar banho, e deixei-os andar por ali a brincar, entre o meu quarto, o quarto deles e a casa de banho. Enquanto preparava pijamas, fraldas, collants, bodys, roupas para o dia seguinte, tocou o telemóvel. Atendi, e enquanto falava, fui terminando o que estava a fazer. Enquanto isso eles continuavam por ali, com vários brinquedos na mão, de um lado para o outro, a conversar e a brincar. Quando desliguei o telefone, a Carolina chamou-me à casa de banho. Estavam os dois a espreitar para dentro do ralo do bidé, cuja tampa tinham tirado, e a Carolina informou-me  que o irmão tinha enfiado "o pau" no ralo! Enquanto isso, o Daniel, com o botão do autoclismo na mão, apontava para o buraco e dizia: " - Mamã o pau está ali! Eu não conxigo tirar!". O que se passou foi que o Daniel e a Carolina resolveram tirar os botões do autoclismo, coisa que fazem imensas vezes, e andar a brincar com eles. Costumo sempre ralhar com eles, pedir que não o façam, que voltem a colocar os botões no sitio, mas na realidade não me parece grave e desde que depois os coloquem lá, não me importo que o façam. Ontem, descobriram algo que nem eu própria sabia! O botão separa-se da haste plástica que encaixa no sitio para o fazer funcionar - o tal pau - e o Daniel resolveu enfiá-lo dentro do ralo do bidé, e ele foi por ali abaixo! Resultado? Fiquei com o autoclismo apenas com um botão, o da descarga completa, sendo que o de meia carga deixou de funcionar! Repreendi-o de forma bastante incisiva, mas sem gritar, disse-lhe que ele tinha estragado o autoclismo, que o pau tinha ido pelo buraco e não se conseguia apanhar, que o que ele tinha feito era uma coisa que não se fazia, e que estava muito triste com ele. E mandei os dois para o meu quarto, sentarem-se à espera que eu acabasse de preparar o banho. Eles foram, e passados uns 2 minutos o Daniel voltou sózinho, veio ter comigo, pegou-me na mão e disse repetidamente: "-Pupupa mamã, pupupaaaa! Não faz mais!"

Tive plena consciência que a minha atitude face ao que ele fez, surtiu mais resultados do que se tivesse gritado com ele! Fiquei contente com isso, e borrifei-me para o autoclismo! 

Quando grito, abro os olhos, grito alto, gesticulo, aproximo-me deles. Já percebi algumas vezes que quando a minha reacção é mais exagerada, eles ficam assustados e das duas uma, ou ficam com medo, ou reagem de igual forma (em particular o Daniel) gritando para mim.  E sim, é verdade! Se alguém gritar comigo o que me apetece é gritar de volta ou dar-lhe logo um encontrão! Porque é que os meus filhos se irão sentir de forma diferente se eu gritar com eles? Não podem! Provavelmente até ficam desamparados por sentirem que a mãe, que deveria ser o seu porto seguro, está a gritar com eles. E se há coisa que definitivamente não quero, é que os meus filhos tenham medo de mim!

Por isso vou tentar cada vez mais não gritar! E se houver momentos em que sinto que não  consigo, tentar travar, e lembrar-me a tempo que em vez de gritar posso cantar!

"Quando te apetecer gritar, sabes o que fazes? Cantas!
Inspira-te!

E acede ao canal do Youtube com todas as ligações
Twist and Shout – Beatles
All together now – Beatles
With a little help from my friends – Beatles
She drives me crazy!- Fine Young Canibals"

E a partir de hoje, começar a trabalhar o vínculo! "O vínculo é a qualidade da relação que temos com o nosso filho e também é a qualidade da relação que eles têm connosco. Não esperes milagres se o tipo de relação que vocês têm não é boa. Não esperes que ele te obedeça se a vossa relação não for saudável. Aliás, a questão da obediência, como já disse inúmeras vezes, é uma falsa questão porque na verdade trata-se de uma questão de cooperação. E ninguém, mas mesmo ninguém vai cooperar contigo se não se sentir ligado a ti."

Tenho lido atentamente todas as dicas que recebo por email, tenho trocado impressões com outras pessoas a este respeito (inscrevi também o marido, e tenho uma amiga, também mãe de gémeos mais ou menos da idade dos meus a tentar o mesmo que eu!), e este fim de semana vou tentar pôr em prática alguns dos conselhos que li. O primeiro, vai ser o dos 15 minutos exclusivos para cada um dos filhos. Vou tentar encontrar uma actividade, de 15 minutos ou de outra duração qualquer, em que me vou focar apenas e só num dos meus filhos de cada vez, e na actividade que escolhemos para fazer juntos - uma que eles gostem, claro!

Vou deixar de parte o "Dia do filho único", por opção. Os meus filhos são gémeos, não vivem um sem o outro, e não faço questão que com esta idade sejam separados. Se saíram um sem o outro duas vezes na vida, se calhar já foi muito, e sei que se os separar, em vez de lhes estar a dar tempo só para eles, estou a causar-lhes sofrimento pela ausência do outro.

Também não vou fazer o caderno da gratidão, porque acho que são demasiado pequenos para o entender e para o construir. Possivelmente irei fazê-lo mais tarde, quando eles tiverem adquirido a maturidade para o construirmos em família.

Durante o inicio da próxima semana partilho o que consegui no fim de semana, que comportamentos mudei, e que reacções obtive! E vocês? Têm conseguido atingir os objectivos a que se propõem?

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